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Alimentação e digestão

O que sua microbiota intestinal faz por você

02/10/17 - Escrito por: ines

Nossa microbiota intestinal – até há pouco mais conhecida como flora intestinal – não só participa ativamente na digestão de tudo que comemos. Também contribui para a saúde cardiovascular, o desenvolvimento e funcionamento do sistema imunológico, influencia a saúde dos ossos e até mesmo nosso bem-estar mental. Assim sendo, os micro-organismos que habitam nosso intestino grosso (que são a grande maioria, já que há poucos no intestino delgado) são fundamentais para a manutenção da boa saúde.

Já em 1676 o holandês Anton van Leeuwenhoek identificou bactérias num microscópio. Mas foi só no final do século XIX que elas passaram a chamar a atenção da comunidade científica como fonte de doenças. Ou seja, bactérias eram tidas como um inimigo a ser combatido para obter-se saúde. Isto levou à descoberta dos antibióticos no século XX.

Mas uma nova onda de interesse surgiu há poucos anos atrás, quando se percebeu que existem também bactérias amigas. Elas habitam nosso trato digestivo e tem grande influência positiva sobre o funcionamento de nosso organismo. Dada sua importância, há cientistas sugerindo que a microbiota seja considerada mais um órgão do corpo. Hoje há milhares de pesquisas sendo feitas sobre o assunto, que prometem novidades a toda hora.

Composição da microbiota

A microbiota, também chamada de microbioma, é composta de 10 a 100 trilhões de micróbios e seus genes. Ou seja, bactérias, vírus, fungos e protozoários, sendo as bactérias a maioria (30-50 trilhões). Pesa aproximadamente 1,5 kg. Cada indivíduo tem seu microbioma único, composto de 500 a 1.000 tipos de bactérias, que tem nomes como Bifidobactéria, Lactobacilos, Bacteroidetes, Firmicutes, etc. Temos no corpo 10 trilhões de células humanas, mas as células de bactérias contam 100 trilhões.

Ou seja, neste tipo de conta somos somente 10% humanos. A composição do microbioma é determinada pela genética (estima-se em 30%), pela dieta, pelo estilo de vida que levamos e pelo ambiente em que vivemos.

Equilíbrio da microbiota é a chave

Na pessoa saudável, o microbioma é composto de 85-90% de bactérias “boas” e o restante de “más”. As últimas são inevitáveis, pois nosso próprio metabolismo produz “lixo”que é eliminado via fezes, urina, suor, etc . Todas as nossas células estão constantemente se renovando – glóbulos vermelhos, por exemplo, são substituídos por novos a cada 100-120 dias.  Um organismo saudável consegue lidar bem com a situação enquanto a proporção de bactérias boas for mantida. Esta ajuda, inclusive, o nosso sistema imunológico, cuja maior parte está localizada no intestino, a “treinar” , para que este não desaprenda a reconhecer os patógenos (bactérias más).

Bactérias boas são os Lactobacilos (acidofilus, bulgarius, casei, reuteri) que ajudam, entre outros, a inibir o crescimento da Candida albicans. Já as Bifidobactérias geram substâncias que desencorajam o crescimento de bactérias patogênicas gram-positivas ou gram-negativas. Ambas as espécies produzem ácido lático a partir de carboidratos (amidos). Outras bactérias boas: Streptocuccus thermophilius, Bacteroides vulgatus, Faecalibacterium prausnitzii, etc.

Há também bactérias que produzem hidrogênio para alimentar outras que o consomem, como a Methanobrevibacter smithii e a Desulfovibrio Piger. Quando há falta delas, o excesso de hidrogênio pode provocar inchaço do abdômen e gases.

O que leva ao desequilibrio da microbiota

  • Falta de ácido hidroclórico (produzido no estômago) ou enzimas digestivas. Isto faz com que nosso sistema digestivo não consiga exterminar as bactérias patogênicas que sempre vem nos alimentos. Assim, as bactérias “más” como o Helicobacter pylori ou as espécies de Salmonella e Shigella se multiplicam no trato digestivo e competem por nutrientes com as “boas”. Também danificam a parede intestinal e liberam excrementos, levando a uma sobrecarga do sistema digestivo.
  • Se toma antibióticos – eles eliminam bactérias indiscriminadamente – ou os anti-inflamatórios não-esteroidais (como ibuprofeno, AAS, aspirina, naproxeno, etc.). Eles reduzem os benéficos lactobacilos e contribuem para a permeabilidade intestinal. Também os antiácidos (inibidores da bomba de prótons, como o Omeprazol) afetam a microbiota, uma vez que, ao reduzir a acidez do estômago, todo o processo digestivo fica prejudicado. A acidez no estômago é necessária para digerir principalmente proteínas, e sem ela a comida não chega decomposta como deveria aos intestinos. A alteração do ph do estômago e demais órgãos do sistema digestivo acelera a perda da diversidade microbiana.
  • Excesso de estresse. No microbioma de pessoas estressadas a comunidade de bactérias se comporta de modo confuso, enquanto em pessoas calmas ela age harmonicamente.
  • Sono insuficiente ou sem qualidade.  Eles levam a desajustes do ritmo circadiano e podem desequilibrar o  microbioma, conforme mostram estudos feitos em animais.

O que a microbiota faz por nós

Sendo os micróbios intestinais uma verdadeira fábrica de substâncias químicas, a microbiota exerce diversos importantes papéis em nosso organismo:

  • É fundamental para uma boa digestão e para aumentar o valor nutricional dos alimentos, já que produz diversas enzimas que o nosso organismo não consegue produzir, e que são necessárias para desmembrar nutrientes complexos, como os polissacarídeos. A fermentação destes resulta na produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC)  que impactam a absorção de água, o fluxo sanguíneo, a atividade muscular do cólon e protegem contra a obesidade, uma vez que estimulam a produção de hormônios da saciedade e inibem o ganho de peso.
  • Colabora para a saúde e integridade da parede intestinal ao impedir que bactérias patogênicas adiram a ela. A bactéria Akkermansia muciniphila funciona como um cortador de grama no intestino ao digerir as células mortas, porém em excesso pode danificar a parede intestinal.
  • Participa na definição do nosso peso corporal: uma microbiota rica em Firmicutes promove obesidade, já que estes são mais eficientes em extrair energia dos alimentos; já os Bacteroidetes protegem contra a obesidade. Dr. Drauzio Varella menciona um estudo de 2006 que mostrou que havia diferenças significativas entre as mucosas intestinas de pessoas obesas e magras: as primeiras eram ricas em bactérias do tipo Firmicutes, enquanto nas segundas predominavam os Bacteroidetes. Notou-se, igualmente, que quando os obesos perdiam peso seu microbioma ficava mais parecido com o de pessoas magras. Outra diferença: uma bactéria de nome Christensenellaceae  é mais abundante em pessoas de peso normal do que naquelas com sobrepeso.
  • Sintetiza uma parte dos amino-ácidos essenciais, cuja maior parte os humanos tem que obter através das proteínas nos alimentos – ao contrário dos ruminantes, que vivem bem com uma dieta sem proteínas, já que sua microbiota é capaz de sintetizar todos os amino-ácidos necessários para sua sobrevivência
  • Sintetizam diversas vitaminas: B12 e outras do complexo B, como tiamina (B1), niacina (B3), ácido pantotênico (B5), biotina (B7) e folato (B9); como também vitamina K2 e até mesmo vitamina C, que até há pouco se pensava só animais serem capazes de produzir
  • Degrada compostos alimentares potencialmente tóxicos, como os oxalatos, bem como processa ácidos biliares, esteróis e xenobióticos
  • Permitem o aproveitamento dos polifenóis que vem nos vegetais – especialmente legumes, verduras e frutas – já que eles não são decompostos no estômago ou intestino delgado
  • Fazendo parte do complexo sistema de comunicação bioquímica e neurológica entre o cérebro (sistema nervoso central) e o sistema gastrointestinal, os desequilíbrios no microbioma tem relação com estados mentais como ansiedade e depressão (já existem pesquisas sobre psicobióticos, ou seja, bactérias que melhoram estados mentais) e podem mudar nosso humor e comportamento. Estudo feito na Irlanda com ratos alimentados com a bactéria benéfica Lactobacillus rhamnosus JB-1 mostraram que os ratos ficavam mais resilientes e tinham menos hormônios do estresse no sangue. Parece que até nossos ancestrais já sabiam desta ligação, não é à toa que existem expressões como borboletas no estômago, ou o estômago embrulha quando se está nervoso. Hoje é a psiconeuroendocrinologia que estuda o assunto.
  • Educa o sistema imune, por exemplo através dos Bacteroidetes – estes regulam a resposta dos linfócitos T (tipo de glóbulo branco) de defesa do organismo, os quais perseguem e destroem patógenos invasores.
  • Funciona como um órgão endócrino, visto que as bactérias sintetizam hormônios e neurotransmissores e reagem a eles. Os Lactobacilos produzem acetilcolina (neurotransmissor usado pelos neurônios motores) e GABA (neurotransmissor que regula o tônus muscular); Bifidobactérias também produzem GABA; Escherias produzem norepinefrima (adrenalina), serotonina e dopamina; Streptococcus e Enterococcus produzem serotonina; e espécies de Bacilos produzem norepinefrina e dopamina.
  • É responsável por 25% da capacidade de destoxificação do organismo
  • Um estudo pioneiro demonstrou uma relação entre a composição do microbioma e a resistência à insulina, que é a precursora do diabetes tipo 2, porém os resultados ainda não foram aprofundados nem validados.

Esta lista certamente aumentará com os resultados das muitas pesquisas que estão sendo feitas. Não é à toa, pois fica cada vez mais claro que não há saúde possível sem um microbioma saudável.

Saiba como cuidar de seu microbioma AQUI.

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Fontes:

https://chriskresser.com/the-microbiota-and-bone-health-yet-another-reason-to-protect-your-gut/?_ga=2.243883717.1133527727.1506016490-443922309.1498245318

http://drjockers.com/is-your-gut-bacteria-making-you-fat

http://www.greenmedinfo.com/blog/germs-help-body-produce-vitamin-c-breakthrough-discovery

https://drauziovarella.com.br/diabetes/microbioma-humano-3

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4259177

http://apjcn.nhri.org.tw/server/info/books-phds/books/foodfacts/html/data/data2c.html

https://www.nature.com/articles/npjbiofilms20163

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24809527

www.psychologytoday.com/blog/the-athletes-way/201708/chronic-stress-discombobulates-gut-microbiome-communities

O Discreto Charme do Intestino – de Giulia Enders

Webinar do Dr. Daniel Kalish em 29/11/17

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