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Doenças crônicas – como elas começam

09/08/18 - Escrito por: ines

As doenças crônicas não tem uma causa só. Caracterizam-se por um conjunto de disfunções fisiológicas influenciadas (menos) pela carga genética e (mais) pelo estilo de vida de cada um. Porém, há sempre um primeiro desequilíbrio que acaba gerando outros, como as pedras de dominó que vão caindo sucessivamente porque a primeira da fila se desestabilizou. E este primeiro desequilíbrio é o excesso de glicose (açucar) no sangue causado pela resistência à insulina, ou pré-diabetes. Ela resulta principalmente de uma alimentação inadequada e excessiva, mas também do sedentarismo, do sono insuficiente ou de má qualidade, do estresse (físico e emocional), ou de toxinas (nos alimentos e no meio ambiente) que vão se acumulando no organismo. A boa notícia é que dá para reverter a resistência à insulina em muitos casos.

Como o pré-diabetes se desenvolve

Doenças cardiovasculares ou auto-imunes, diabetes, desequilíbrios hormonais, hipertensão, colesterol elevado, demência senil/Alzheimer’s, etc.  Todas geralmente começam com a resistência à insulina, pois esta afeta diversos outros sistemas do organismo, levando a uma cascata de disfunções.

Toda vez que comemos, o corpo secreta o hormônio insulina. Este estimula as células – através de receptores em sua superfície – a absorverem da corrente sanguínea o seu combustível, a glicose. Este processo se torna problemático quando comemos demais e mal, pois o pâncreas produz mais insulina para diminuir a glicose no sangue, já que sangue muito “doce” é tóxico. Aumentando a insulina em circulação, nossas células se adaptam, reduzindo, na própria superfície, o número de receptores que reagem à insulina, visto que elas só tem uma capacidade limitada de absorver glicose. Em outras palavras, nossas células se dessensibilizam à insulina, numa auto-proteção. Assim evitam que as células recebam mais glicose do que conseguem processar.

Porém, havendo menos receptores em sua superfície, as células ficam subnutridas, o pâncreas recebe a mensagem e reage liberando ainda mais insulina e gerando mais resistência a ela. Este círculo vicioso acaba levando ao diabetes tipo 2, o que pode demorar anos. Quantos? Depende da bio-individualidade de cada um.

A resistência à insulina como raiz das doenças crônicas

Excesso de glicose (hiperglicemia) e insulina no sangue estão associadas à inflamação sistêmica (do corpo todo) de baixa intensidade. Com esta, as células subnutridas se inflamam, fazendo com que o organismo passe a produzir citocinas inflamatórias (como IL-6 and TNF-α). Além disto os seguintes hormônios e sistemas são afetados, contribuindo para a degeneração e envelhecimento precoce do organismo:

  1. O cortisol, conhecido como hormônio do estresse, é desregulado. Ele é antagonista da insulina, ou seja, a insulina entra em ação quando a glicose no sangue sobe. Mas o cortisol o faz quando a glicose cai demais, já que a hipoglicemia é um estressor para o organismo. Então comer demais, especialmente doces e farinhas, impacta a regulação do estresse no organismo (através da liberação de cortisol), já que hiper e hipoglicemia frequentemente andam juntas.
  2. Os hormônios sexuais se desregulam quando muito cortisol é usado para equilibrar a glicose no sangue, pois eles são feitos da mesma matéria-prima e pelos mesmos caminhos metabólicos que o cortisol. Em mulheres isto pode levar a excesso de testosterona (calvície, crescimento de pelos), ovários policísticos, síndrome de tensão pré-menstrual e infertilidade. Nos homens pode causar excesso de estrogênio e o desenvolvimento de características femininas.
  3. A conversão de hormônios tireoidianos é bloqueada, provocando hipotireoidismo.
  4. O sistema neuro-imuno-transmissor é desregulado, pois os neurotransmissores atuam no sistema nervoso e também no imunológico, contribuindo para gerar inflamações.

Alguns sintomas de pré-diabetes

  • Cansaço e sonolência após as refeições
  • Desejo de comer doces após as refeições
  • Desejo de comer doces não desaparece após consumi-los
  • Não conseguir ficar 5-6h sem comer
  • Circunferência da cintura maior que a do quadril
  • Dificuldade de perder peso
  • Dificuldades de adormecer ou acordadas frequentes durante a noite com dificuldade para voltar a dormir

Como reverter a resistência à insulina (ou evitá-la)

Para reverter a resistência à insulina é imprescindível mudar a dieta, até mesmo para perder peso. Peso normal diminui muito o risco de desenvolver pré-diabetes, o que não significa que não existam diabéticos magros (20% o são). O pior que se pode fazer nesta condição é continuar consumindo carboidratos refinados – especialmente açúcar e farinha brancos, já que a farinha é transformada em glicose durante o processo digestivo. Refrigerantes ou bebidas energéticas, bebidas alcoólicas, doces de todos os tipos, biscoitos, bolos, torradas, pães, massas, barras de cereais e outros itens de alto índice glicêmico, bem como laticínios, contribuem para o pré-diabetes, ainda mais quando consumidos em grande quantidade e regularmente.

Leia sempre os ingredientes nos rótulos dos produtos que comprar. A grande maioria dos produtos industrializados tem altas doses de açúcar (sob diferentes nomes – veja detalhes no ebook gratuito) e farinha branca, além de gordura trans, que também é inflamatória.

É importante cada um encontrar seu nível de tolerância a carboidratos, pois este varia bastante conforme a bio-individualidade. Se você sentir cansaço após as refeições ou o desejo de comer doces é sinal que você exagerou nos carboidratos, então tente diminui-los na próxima refeição e veja como se sente. Você também pode medir sua glicose em jejum com um glicosímetro. O valor ideal é na casa dos 80-85,  no máximo 95, embora na medicina convencional se fale em 100.

Algumas dicas para estabilizar a glicose no sangue

  • Tenha um café-da-manhã rico em proteínas e gorduras saudáveis e baixo em açúcar e farinhas/amidos
  • Não coma alimentos ricos em carboidratos sem alguma fibra, gordura saudável ou proteína. Estes diminuem a velocidade de absorção da glicose no sangue, evitando picos de insulina
  • Não use café ou doces para conseguir manter seu nível de energia durante o dia. Melhor é ter sempre a mão algum snack à base de proteína ou gorduras saudáveis, com poucos carboidratos (azeitonas, nozes, sementes, iogurte integral sem açúcar ou adoçantes, ovo cozido, etc.)
  • Não coma ou beba nada rico em carboidratos à noite antes de dormir para não provocar picos de insulina. Quando a insulina sobe demais, a chance é grande que a glicose no sangue caia demais algum tempo depois. É a hipoglicemia que leva às acordadas no meio da noite.
  • Não consuma refrigerantes, mesmo os diet ou light, nem sucos de frutas, mesmo que naturais e não adoçados. A dose de açúcar dos últimos é muito alta, e a falta da fibra contida nas frutas inteiras os faz gerar picos de insulina.
  • Tenha uma dieta baseada em alimentos ricos em nutrientes e pobres em carboidratos refinados. Ou seja, consuma muitos vegetais (legumes e verduras à vontade, frutas com moderação), proteína animal (de preferência de animais criados a pasto) ou vegetal (contida em alimentos como as oleaginosas ou leguminosas) e gorduras saudáveis. Diminua o consumo de grãos (arroz, milho, trigo, etc.) e substitua-os por tubérculos (batata doce, inhame, cará, etc.). Os últimos contém mais nutrientes por g de peso e são melhores prebióticos (alimento para o microbioma).
  • Carboidratos, mesmo os saudáveis como grãos integrais ou tubérculos, devem ser consumidos com moderação se você tem tendência ao diabetes. A genética influencia a maior ou menor tolerância a carboidratos. Lembre que ter uma tendência genética não significa que você vá obrigatoriamente desenvolver a doença.
  • Consuma alimentos anti-inflamatórios, como os ricos em ácidos graxos ômega 3 (peixes de água fria, linhaça, sementes de abóbora) e em fitonutrientes (legumes coloridos e verduras, frutas). Use generosamente temperos e ervas, incluindo gengibre, canela e açafrão-da-terra.
  • Pratique exercícios físicos, que ajudam a estabilizar a glicose no sangue
  • Durma o suficiente – privação de sono contribui para o pré-diabetes

Exames que detectam o pré-diabetes

  • Glicemia de jejum – normal é de até 99 mg/dl; valores entre 100 e 125 significam pré-diabetes; acima disto é diabetes.
  • Glicemia pós-prandial – Mede-se a glicose no sangue 1, 2 e 3 horas após uma refeição que contenha carboidratos (pode ser medido em casa, com o glicosímetro, ou em laboratório). O valor em indivíduos saudáveis costuma ser inferior a 140 mg/dl após a primeira hora, menor que 120 mg/dl após 2 horas e retorno aos valores de jejum após 3 horas.
  • Hemoglobina glicada (A1C) – Mede-se a porcentagem (média dos últimos 3 meses) de hemoglobina (proteína contida nos glóbulos vermelhos do sangue) ligada à glicose. Quanto maior for o nível de glicose na circulação, maior será a proporção da glicose ligada à hemoglobina. Valores abaixo de 5,7% (melhor ainda 5,3%) são considerados normais, tudo acima disto indica pré-diabetes ou diabetes tipo 2.
  • Triglicérides elevados indicam que o consumo de caboidratos está muito alto. Consulte seu médico ou nutricionista a respeito.

 Revertendo a resistência à insulina naturalmente

O pré-diabetes é, então, uma doença típica da modernidade com seus supermercados sempre cheios de guloseimas ao alcance da mão. Hoje manifesta-se mesmo crianças, adolescentes e jovens adultos, ao contrário do que ocorria com nossos ancestrais, em que o diabetes era bastante raro. Uma curva glicêmica estável, sem picos de hiperglicemia nem quedas de hipoglicemia é considerada um marcador de saúde e longevidade.

Sendo, na maioria dos casos, um estado causado pela alimentação excessiva e/ou inadequada, por que o pré-diabetes não seria reversível com uma alimentação moderada e adequada? A medicina convencional tem o diabetes tipo 2 como não curável, mas somente controlável. A medicina funcional, porém, ensina que ele é reversível, pelo menos em boa parte dos casos. E sem o uso de medicamentos, mas somente com intervenções no estilo de vida. Então, você está preparado para se adaptar a um estilo de vida mais saudável?

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Foto: nursing.com.br

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