Home / Blog / Estresse: definição, causas, sintomas

Corpo, mente e espírito

Estresse: definição, causas, sintomas

12/09/18 - Escrito por: ines

O estresse afeta nossa mente e nosso físico. Influencia o peso corporal, a secreção de hormônios sexuais, o funcionamento da tireoide, a glicose no sangue e a capacidade mental.  Ele é considerado o maior problema de saúde da atualidade, estando envolvido em 75-90% das doenças e queixas dos pacientes.

O pesquisador pioneiro dos efeitos do estresse sobre o organismo foi o endocrinologista austro-canadense Hans Selye (1907-1982). Ele foi diversas vezes nomeado, porém nunca agraciado com o Premio Nobel.  Foi ele quem cunhou o termo estresse, emprestado da física, em que designa qualquer força que tencione ou deforme. Diz ele: “O estresse á a resposta não-específica do organismo a qualquer demanda ou mudança”.

Os dois lados do estresse

O pesquisador definiu estresse como a resposta não específica do organismo a qualquer demanda. Ele fez uma distinção entre o estresse “bom”, eustress, ou o “ruim”, que seria o distress. O bom estresse seria representado por desafios que nos fazem crescer, enquanto o ruim é a incapacidade de lidar com problemas. O organismo não sabe distinguir entre um e outro, portanto ambos podem sobrecarregá-lo e são cumulativos.

Selye constatou que o estresse não é só o “estresse nervoso”, mas pode ser também provocado por fatores externos do tipo físico/biomecânico (fraturas, má postura, excesso de exercícios, etc.), ou internos do tipo químico/bioquímico/funcional (toxinas e poluentes, alergias e sensibilidades alimentares, parasitas, alimentação em excesso ou insuficiente, restrição de sono, etc.). Mesmo adventos corriqueiros como variações climáticas,  fome, sede, excesso de ruídos, campos eletromagnéticos, são estressores.

O estresse como mecanismo de adaptação

Numa perspectiva evolucionária, o estresse foi um importante mecanismo de adaptação e sobrevivência dos humanos. Funciona assim: imagine um homem da caverna à procura de caça e que encontra uma leoa faminta. Antes que ele possa sequer decidir se vai lutar ou fugir, seu cérebro, que percebe a ameaça, prepara seu organismo para ambas as possibilidades que requerem muita força e energia.

O cérebro (hipotálamo) transforma impulsos elétricos vindos dos órgãos sensoriais (olhos, nariz, boca, etc.) em impulsos bioquímicos. Então são liberados os hormônios epinefrina (ou adrenalina), norepinefrina (ou noradrenalina) e cortisol. Estes fazem as pupilas dilatar (para incrementar a visão), o sistema respiratório se distender (para melhorar o fornecimento de oxigênio), os batimentos cardíacos aumentarem (para aumentar o abastecimento de sangue para os músculos) e a liberação de glicose aumentar (para abastecer os músculos e o cérebro). Ao mesmo tempo, estes hormônios restringem o fluxo sanguíneo para órgãos não necessários naquele momento, como os dos sistemas digestivo, reprodutivo e imunológico.

O sistema nervoso autônomo

Estas reações rapidíssimas são coordenadas pelo sistema nervoso autônomo, que controla as funções vitais e involuntárias do organismo (como respirar ou digerir). Ele tem duas ramificações: o sistema nervoso simpático (SNS) e o parassimpático (SNP). O simpático, que é acionado nas emergências, é também chamado de modo “luta ou fuga”. O parassimpático é o modo “relaxa, digere e cura”. Ambos se revezam conforme os estímulos que vem do ambiente que nos cerca. Se o nosso homem da caverna sobreviveu, passado o estresse agudo ele voltou ao modo relaxa e digere e assim recompôs suas forças.

Portanto, não existe estresse que não afete todo o organismo. Isto se deve especialmente à atuação do cortisol, que tem diversas funções, mas não consegue desempenhá-las a contento quando o estresse o requisita a toda hora.

Estresse e cortisol

Hoje não temos mais animais selvagens a nos espreitar, porém os mecanismos de resposta ao estresse continuam os mesmos. Além do mais raro estresse agudo, temos o estresse crônico, que nos afeta com mais frequência e por mais tempo, levando a uma secreção quase ininterrupta de cortisol.

A principal função do cortisol é elevar a glicose no sangue quando ela cai demais, evitando a hipoglicemia, que pode ser fatal. Portanto, o cortisol é energizante, visto que eleva a glicose no sangue. Tem também ação anti-inflamatória.

Anabolismo e catabolismo

Para obter a energia de que necessita para funcionar, o organismo faz uso de reações químicas em processos catabólicos e anabólicos. Eles se revezam conforme a demanda do ambiente/da situação. Nos processos catabólicos, moléculas maiores e complexas, como as de proteína, são quebradas em outras menores e mais simples, os aminoácidos. Este processo de decomposição de tecidos como músculos, ossos, pele, cabelos, etc. libera energia e é típico do modo luta ou fuga. Hormônios catabólicos incluem o cortisol, a adrenalina/epinefrina e a noradrenalina/norepinefrina.

Os processos anabólicos, ao contrário, são típicos do modo relaxa, digere e cura e consomem energia. É quando moléculas menores como os aminoácidos são usadas para construir moléculas maiores e mais complexas, como proteínas, enzimas, neurotransmissores, etc. Hormônios anabólicos são os hormônios sexuais como DHEA, estrogênio, progesterona ou testosterona, bem como insulina e o hormônio de crescimento GH.

Idealmente, a energia produzida no catabolismo é usada no anabolismo. Porém, quando há excesso de cortisol o organismo não sai do modo catabólico, levando à perda de tecidos (como massa muscular). Ao mesmo tempo a energia produzida de sobra é armazenada nos tecidos adiposos, provocando ganho de peso.

Cortisol e hormônios sexuais

O cortisol é produzido nas glândulas suprarrenais, localizadas acima dos rins. Sua secreção é controlada por um sistema de retroalimentação negativa com o cérebro/hipotálamo. Ou seja, este age como um termostato que manda liberar mais cortisol quando ele falta, ou menos quando há excesso.

Os hormônios sexuais também são produzidos (em parte) nas glândulas suprarrenais, a partir da mesma matéria prima (colesterol) e por vias metabólicas comuns ao cortisol. Portanto, a produção de hormônios sexuais cai quando as suprarrenais são chamadas a secretar cortisol o tempo todo. Assim, acabam faltando os hormônios anabólicos para reconstruir os tecidos. Em consequência ocorrem ciclos irregulares e infertilidade em mulheres e baixa libido em ambos os sexos.

Sintomas de cortisol alto

Num primeiro momento do estresse o cortisol sobe, fornecendo energia abundante. É por isto que não nos sentimos cansados quando estamos apaixonados ou no começo de um período de jejum (que são ambos estressores). Além dos mencionados, o cortisol alto pode produzir sintomas como:

  • Dificuldade em perder peso e  diabetes tipo 2: com secreção de cortisol alta, também a secreção do antagonista insulina aumenta. Esta é quem manda armazenar, em forma de gordura, o excesso de glicose. A fórmula é: mais cortisol aumenta nível de glicose no sangue → mais glicose aumenta a secreção de insulina para baixá-la → a glicose que não consegue entrar nas células é armazenada nas células adiposas.
  • Gordura abdominal – o cortisol desloca gordura de áreas periféricas e subcutâneas (como coxas e nádegas) para a área central, que tem mais receptores para ele.
  • Distúrbios de sono – a secreção de cortisol (lembra que é energizante?) é alta de manhã, para nos dar energia para sair da cama, e vai caindo ao longo do dia. A melatonina, o hormônio do sono, ao contrário, é baixo de manhã e alto à noite para nos dar sono. Quando o cortisol é alto demais ele inibe a produção de melatonina, gerando insônia.
  • Distúrbios digestivos – uma boa digestão só pode ocorrer quando o organismo está no modo relaxa, digere e cura. Com o cortisol alto a digestão fica comprometida, já que a secreção de algumas enzimas digestivas é inibida
  • Hipotireoidismo (tireoide lenta) – o cortisol inibe a conversão do hormônio tireoidiano inativo T4 em sua versão ativa T3, e aumenta o nível de T3 reverso (forma inativa do T3). A falta do hormônio tireoidiano prejudica o funcionamento do cérebro, levando à confusão mental (em tradução livre do ingles “brain fog”, podendo fog ser traduzido tanto como confusão, ou névoa)
  • Memória fraca – excesso de cortisol sobrecarrega e danifica o hipocampo, que é a parte do cérebro onde memórias são processadas e armazenadas
  • Depressão – há uma relação entre altos níveis de cortisol e baixa secreção de neurotransmissores como serotonina e dopamina.
  • Sistema imunológico comprometido – boa parte do sistema imunológico está situada no intestino, que é constantemente confrontado com alimentos ou parasitas que vem do mundo externo. Para se proteger a parede intestinal produz  os anticorpos imunoglobulina A.  O excesso de cortisol inibe a produção destes, expondo o organismo à ação de bactérias, fungos e patógenos.

Sintomas do cortisol baixo

Quando predominam os processos catabólicos o organismo tende a se exaurir. Segue-se uma fase de cortisol baixo que tem alguns sintomas em comum com o cortisol alto, mas tem também sintomas próprios como:

  • Cansaço e fadiga crônica, inabilidade de lidar com estresse – resulta da falta do cortisol energizante e do estado catabólico do organismo
  • Desequilíbrio do sistema imunológico – cortisol baixo desequilibra o revezamento saudável dos linfócitos Th1 (agem localmente e são inflamatórios) e Th2 (agem no corpo todo e não são inflamatórios), aumentando o risco de inflamação crônica e doenças autoimunes.

Estresse leva à doença

Assim, estresse crônico invariavelmente leva o organismo a adoecer – é só uma questão de tempo e dos órgãos/funções afetados. A boa notícia é que as doenças são reversíveis desde que o estresse seja reduzido ou compensado com atividades prazerosas, e se adote uma dieta e um estilo de vida apropriados. Veja como fazê-lo AQUI.

Caso tenha comentários ou dúvidas, por favor use o espaço abaixo. Desde já agradeço.

Fontes: http://www.apa.org/helpcenter/stress-body.aspx

https://www.drlam.com/blog/neuroendometabolic-symptoms-of-stress/15285

https://wellness.uchicago.edu/page/stress-fundamentals  

www.webmd.com/balance/stress-management/effects-of-stress-on-your-body

Compartilhe:

Deixe seu comentário: