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Alimentação e digestão

O que comer, afinal?

31/08/18 - Escrito por: ines

Hoje há tanta informação disponível sobre alimentação que fica difícil saber como fazer as melhores escolhas. Contradições, exclusões e difamações não faltam. Há milhares de pesquisas sendo feitas, há gente demais interpretando-as e falando sobre ciência sem conhecer os métodos científicos. Ou procurando seus 5 minutos de glória com ajuda de likes nas mídias sociais. O que comer, e quando, se torna uma decisão complexa, gerando confusão e insegurança.  O ato de comer é algo natural e não deveria ser nada disto.

Aqui exponho a minha opinião baseada em vários anos de pesquisas, mas também no bom senso e naquilo que meu organismo me diz.

As limitações das pesquisas científicas

As pesquisas científicas nem sempre são imparciais ou conduzidas conforme métodos e técnicas específicos da ciência, a saber:

  • Existem estudos observacionais, ou epidemiológicos, em que o cientista observa uma determinada população e tira conclusões sem interferir na vida normal dos participantes da pesquisa. Por exemplo: comparar a proporção de doenças do pulmão entre um grupo de fumantes e outro de não fumantes. O resultado permite concluir que há uma RELAÇÃO ou ASSOCIAÇÃO entre o ato de fumar e o desenvolvimento de doenças do pulmão, mas não permite estipular o fumo como CAUSA de uma doença. Relação não é o mesmo que causa.
  • Diferente é o estudo randomizado controlado duplo cego – o de mais alto padrão de confiabilidade – em que os participantes são escolhidos aleatoriamente e divididos em 2 grupos: o de intervenção, em cuja vida se intervém com algum medicamento, por exemplo, e o grupo de controle, que recebe um placebo. O duplo cego se refere a nem os participantes nem o condutor da pesquisa saberem quem recebeu a intervenção para garantir a imparcialidade. Este tipo de estudo permite determinar uma causalidade desde que abarque um número significativo de participantes.
  • A pesquisa com humanos é sempre mais difícil, já que há princípios éticos, morais e legais a serem observados. Um animal de laboratório pode ser confinado e tudo que come ou que faz ser controlado. Porém, com humanos isto não é praticado, pelo menos em prazos longos.

Outros problemas com as pesquisas científicas

A ciência é um método de investigação e está em constante movimento e evolução. Assim, a verdade de hoje poderá não valer amanhã. Além disto, ela tem outras limitações:

  • Resultados e conclusões obtidos de curtos prazos não valem obrigatoriamente  para o longo prazo
  • Conclusões de pesquisas in vivo (feitas em animais de laboratório) ou in vitro (fora do organismo vivo) nem sempre valem para o organismo humano
  • É comum um conflito de interesses: pesquisas são sempre caras, fazendo com que o financiador espere certos resultados, especialmente se forem empresas (e não instituições de pesquisa independentes financiadas por diversas fontes). Além disto, pesquisas que não levarem às conclusões esperadas podem ser engavetadas ou manipuladas para gerar resultados. Um bom exemplo é a pesquisa de Ancel Keys sobre gorduras saturadas (veja AQUI).
  • As empresas, especialmente as farmacêuticas, não raro fazem doações a universidades de medicina para adquirir o direito de interferir na vida acadêmica e no currículo delas. Deste modo os estudantes são convencidos desde logo sobre as vantagens dos medicamentos, ignorando ervas ou outras terapias usadas há séculos e que não podem ser patenteadas.
  • Para alcançar a comunidade científica, pesquisas são publicadas em jornais ou revistas que dependem de anunciantes para se financiar. Como as indústrias farmacêutica e alimentícia são grandes anunciantes, elas podem influenciar a escolha dos artigos a serem publicados, tornando os critérios de escolha mais econômicos do que científicos.
  • Manipulação de números: se um certo medicamento reduz a probabilidade de alguém desenvolver uma certa doença de 2% para 1%, o resultado não é lá muito significativo. É mais interessante alardear uma redução de 50%.

Pesquisas na área de saúde e o fator humano

Mesmo que todas as pesquisas publicadas na área de saúde fossem de validade inquestionável, há a considerar como o público leigo lida com as informações:

  • A maioria de nós prefere incorporar novas informações que não contradigam aquilo que já temos como certo. Lidar com o pensamento diferente exige mais esforço/energia, então tendemos a preferir ficar na zona de conforto. Isto ocorre mesmo entre profissionais de saúde que visitam congressos ou lêem novas pesquisas que reforçam aquilo que já sabem. Assim acabam aprendendo mais do mesmo.
  • É difícil se impor contra o pensamento dominante vigente. Muitos médicos que ousaram sugerir novos procedimentos foram inicialmente marginalizados e ridicularizados pela comunidade científica de seu tempo.  Foi assim, entre outros, com o descobridor da assepsia, Ignaz Semmelweiss, que percebeu a importância do simples lavar as mãos entre os atendimentos. E continua acontecendo. A medicina convencional se diz a única baseada em evidências científicas, embora esta mesma ciência demonstre hoje aquilo que sistemas de curas tradicionais já sabiam há milênios.
  • Experiências reais de uma pessoas conhecida nos influenciam mais do que pesquisas científicas feitas por anônimos em ambientes acadêmicos.

Como escolho o que comer

Minhas opções alimentares são um composto de diversos fatores. Há os hábitos alimentares herdados da família que geraram predileções e emoções (positivas e negativas). Hoje ainda preparo e aprecio alguns dos pratos tradicionais da família, porém raramente, ou porque demandam muito tempo ou porque sei (a ciência me diz) que é melhor para mim consumi-los com moderação (como doces e tortas). Porém, procuro não deixá-los cair no esquecimento, afinal são um patrimônio cultural da família. Não me privo deles, mas consumo-os esporadicamente e moderadamente.

Somos fruto de nossos genes, e estes foram moldados por muitíssimas gerações de ancestrais que conseguiram se adaptar ao meio ambiente em que viviam, tirando dele seu alimento. Então a forma de se alimentar de meus avós tem que ser certa e boa, senão eu não estaria aqui. Se meus ancestrais vivam menos do que o fazemos hoje, é porque morriam de doenças infecciosas para as quais ainda não havia antídoto (antibióticos). Certamente não porque comiam mal. Aliás comiam menos (o acesso era mais difícil), e produtos mais naturais, vindos da terra (e não de fábricas) e menos poluídos por agrotóxicos e aditivos alimentares.

E por termos nossa individualidade genética, devemos seguir também uma dieta individualizada: o que é bom para mim pode não sê-lo para você. Não existe dieta boa para todos nem alimento bom para todos. Nos EUA já há exames para detectar compatibilidades alimentares.

O que a ciência me sugere não comer

Preferindo sempre a comida de verdade (que não vem embalada e tem só 1 ingrediente), ainda assim respeito as novidades da ciência:

  • não compro margarina (é gordura trans) nem óleos vegetais de grãos (soja, milho, girassol, canola, etc.), já que gorduras poliinsaturadas como estas oxidam facilmente e danificam a estrutura das membranas celulares. Além disto passam por diversas etapas de processamento, fazendo com que sobre pouco de natural neles.
  • evito consumir açúcar branco e farinha de trigo. O açúcar, além de conter calorias vazias, vicia ao acionar mecanismos de recompensa no cérebro. O trigo contém gluten, uma molécula grande de difícil digestão. Além de ser hoje tão “melhorado” geneticamente que pouco se parece com o trigo de nossos ancestrais. Talvez por isso seja mal tolerado por muita gente, ou é a overdose de trigo em pães, bolos, salgadinhos, alimentos processados e medicamentos que anda fazendo mal.
  • fujo de soja e milho convencionais, visto que 85-90% das culturas são transgênicas, e ainda não há pesquisas confiáveis (não patrocinadas pelos próprios fabricantes das sementes) de longo prazo que demonstrem serem seguros os organismos geneticamente modificados.
  • prefiro sempre os produtos de agricultura orgânica. Eles contém menos agrotóxicos, ou nenhum, e contribuem para um meio ambiente saudável.

O que comer – juntando ciência, hábitos, tradição, truques e como me sinto

Todos temos hábitos alimentares e mudá-los não é fácil. Mudanças custam energia e nosso cérebro foi programado para poupá-la. Então ele se opõe até perceber que a mudança não é nenhuma ameaça, afinal. Mesmo sendo complicadas, mudanças são possíveis e ficam mais fáceis quando feitas aos poucos.

Além disto, o veneno está na dose. Não precisamos nos privar dos alimentos de que gostamos – isto gera estresse. Basta reduzir o consumo (frequência e quantidade), aí fica mais fácil lidar com o tema. Deixo para comer meu doce predileto aos domingos, e como com moderação. Também adapto algumas das tradições culinárias da família para torná-las mais saudáveis.

Não tenho em casa alimentos que não quero comer, pois a dificuldade de acesso diminui o consumo. E fujo dos templos de consumo que são os supermercados, ou pelo menos evito alguns de seus corredores.

Procuro, igualmente, respeitar os sinais que meu corpo me dá: se algo não desceu bem, procuro modificar o preparo ou até evito o alimento suspeito por algum tempo.

Sigo o lema “Comer bem é um ato de amor próprio”, ou seja, minha comida tem que ser rica em nutrientes (que só a comida de verdade é), preparada do jeito certo (nada de frituras ou carnes esturricadas), simples (o preparo consome pouco tempo), gostosa (não economizo em ervas,  temperos e gorduras “boas”) e, sempre que possível, trazer boas lembranças ou servir de acompanhante numa boa conversa!

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Foto: Alex Iby em Unsplash

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