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Onde as toxinas se escondem – parte I

06/07/17 - Escrito por: ines

Vivemos num mundo tóxico, em que as toxinas estão em todos os lugares: no ar, na água, na comida, nos produtos de higiene pessoal e de limpeza, nos cosméticos, e até nos medicamentos. Conforme o EWG – Environmental Working Group – uma ONG dos EUA que monitora e testa substâncias químicas, existem atualmente 85.000 produtos químicos aprovados para uso cuja segurança nunca foi devidamente testada; e o próprio EWG examinou apenas algumas centenas para verificar sua inocuidade. Mesmo em cordões umbilicais foram encontrados mais de 200 toxinas, o que significa que as crianças já nascem contaminadas com elas.

A análise e o controle de poluentes pelos órgãos responsáveis costumam ser, no mínimo, insuficientes. Quando criada em 1970, a Agência de Proteção Ambiental (EPA), o órgão público dos EUA encarregado de controlar a segurança dos produtos existentes, presumiu a grande maioria deles como segura. Conseguiu encontrar motivos para analisar somente alguns poucos, e até hoje o faz com menos de 2% dos novos produtos lançados no mercado. Para classificar uma substância como perigosa, a agência tem que provar “riscos significantes” e que os benefícios de restringir o uso são maiores do que os custos. Mesmo quando a agência consegue impor restrições ao uso de um produto, tem que optar por aquela menos onerosa para o fabricante.  Portanto, o sistema mais parece feito para não dificultar a vida dos fabricantes, ao permitir o uso de expressões pouco precisas como “risco não razoável de dano”, e menos para proteger a saúde da população. Não sei como é feita a aprovação de produtos químicos no Brasil (certamente haverá pontos em comum com os procedimentos dos EUA), mas li que um passo à frente está sendo dado: O Ministério do Meio Ambiente está elaborando a Política Nacional de Segurança Química, com previsão de entrega até 2021.

Porque as toxinas continuam por aí

A confiança dos consumidores nos órgãos públicos e na propaganda das empresas nem sempre é justificada. É comum pensarmos que produto X não estaria no mercado se nos fizesse mal, acreditando que “o governo” zela por nosso bem estar ou que a mídia noticiaria qualquer problema. Ou que o produto daquela propaganda da família feliz possa ter algo de prejudicial. Esta confiança pode nos custar caro, uma vez que boa parte das toxinas que entram em nosso organismo o fazem em pequeníssimas doses que fazem estrago somente no longo prazo, já que são cumulativas e vão nos adoecendo devagarzinho. Também é difícil provar a relação de causa entre uma toxina e uma doença, uma vez que o doente dificilmente consome só um produto com ingredientes não totalmente seguros e pesquisas de longo prazo em humanos sobre a toxicidade de determinado componente são caríssimas e controversas sob perspectiva ética.

Embora os malefícios para a saúde de muitos dos produtos mencionados neste artigo sejam amplamente conhecidos, muitos ainda são liberados para uso por uma série de motivos: não há substitutos disponíveis, ou de custo-benefício aceitáveis (como o herbicida paraquat utilizado para dissecar a soja); ainda não há legislação que proíba seu uso; não há incentivos (monetários, éticos, etc.) para controlar o seu uso; a atuação dos lobbies junto aos legisladores é constante; quando não são obrigados, fabricantes não dão informações sobre as formulações usadas, alegando que é responsabilidade do fornecedor zelar pela segurança do insumo que utilizam.

Apesar dos empecilhos, ainda assim em 2016 foi formulada a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos por iniciativa popular (Projeto de Lei 6670). Mesmo que tardiamente é um passo na direção certa neste nosso país que consome sozinho cerca de 20% do total de agrotóxicos produzido. 

Como se proteger das toxinas

Para diminuir o consumo involuntário de toxinas – já que é impossível eliminá-lo totalmente, é importante ler a lista de ingredientes dos rótulos de alimentos e medicamentos/suplementos, e quando há dúvidas, checar com o fabricante. Nos remédios e suplementos, por exemplo, nem sempre consta do que são feitos o excipiente e a cápsula, que podem conter glúten, leite e/ou alérgenos. Em alimentos e cosméticos, muitas vezes aparecem substâncias químicas de nomes longos e compliocados que nada dizem a leigos, porém só saberemos mais se pesquisarmos e questionarmos os fabricantes, já que eles não tem interesse em divulgar eventuais perigos para a saúde dos usuários. Informe-se, fale com os fabricantes, é seu direito (e dever para com sua saúde).

Mesmo que todos os produtos tóxicos fossem proibidos a partir de amanhã, muitos deles continuariam por aí por muito tempo ainda, infelizmente – leia sobre POPs mais abaixo. Mas isto não é motivo para deixarmos de ficar espertos e pró-ativos, tentando assim evitar danos piores ainda.

Evite alimentos industrializados, consumindo produtos orgânicos ou ecológicos ou comprovadamente feitos com ingredientes naturais e sem aditivos químicos, como conservantes, corantes e mais outros “antes”. A designação “natural” é um grande chamariz, porém é vaga e não diz nada sobre a qualidade do produto ou os demais componentes dele. Conforme a legislação brasileira de 1969 o alimento in natura é: “todo alimento de origem vegetal ou animal, para cujo consumo imediato se exija apenas a remoção da parte não comestível e os tratamentos indicados para a sua perfeita higienização e conservação”. Também os produtos de higiene pessoal, cosméticos e produtos de limpeza devem ser preferencialmente orgânicos, embora no Brasil ainda não haja a regulamentação para estes produtos – o projeto de lei 532/2015 sobre os cosméticos orgânicos ainda tramita no Senado. Ou faça você mesmo/a os seus produtos com ingredientes que conhece; há diversos sites e vídeos dando receitas DYI (do it yourself) ou faça você mesmo/a.

Plásticos – como limitar seu uso

É difícil imaginar uma vida sem plásticos, não só porque estão em todo lugar, mas também porque são práticos e baratos, leves e impermeáveis. Porém, o seu uso em grande escala traz também uma série de problemas:

  • Apesar da reciclagem, boa parte dos plásticos acaba nos aterros sanitários, e o resto é jogado/deixado em lugares impróprios, de onde são levados para rios e mares, onde causam danos a ecossistemas marinhos e entram na cadeia alimentar
  • Durante a produção dos plásticos, poluentes tóxicos são liberados no ar, e durante toda a sua vida útil continuam a vazar toxinas para o ar e para os produtos que embalam
  • Apesar dos novos plásticos verdes feitos a partir de matéria prima renovável, como amido de mandioca ou milho ou etanol, que também são biodegradáveis, a maior parte dos plásticos ainda é feita de petróleo, uma matéria prima não renovável, que demoram mais de 100 anos para se decompor
  • Considerando as guerras, corrupção e devastação ambiental causadas pela demanda por petróleo, seu uso não é sustentável nem do ponto de vista político ou ético, nem do ambiental.

Algumas sugestões para diminuir o consumo de plástico e sua exposição a suas toxinas:

  • Evite comprar produtos embalados em plásticos e, sempre que possível, use embalagens retornáveis ou reutilizáveis para diminuir o consumo de sacos ou filmes plásticos. As latas são revestidas por uma camada plástica, então evite-as sempre que possível. O papel manteiga substitui o plástico em alguns casos.
  • Guarde restos de comida em potes de vidro, cerâmica ou aço inox, especialmente os que forem usados para requentar alimentos; os plásticos liberam toxinas especialmente em contato com alimentos gordurosos, quentes e ácidos (como molho de tomates)
  • Não dê brinquedos de plástico para as crianças
  • Evite usar louça, copos ou talheres descartáveis (de plástico ou isopor), especialmente para receber comidas ou bebidas quentes

Toxinas mais comumente encontradas

a) Disruptores endócrinos – DE

Grande atenção tem sido dada aos disruptores endócrinos, que são substâncias que simulam hormônios como os estrogênios (xenoestrogênios), os androgênios e os hormônios da tireoide, podendo interferir com o sistema endocrinológico de humanos e animais (especialmente algumas espécies aquáticas), produzindo efeitos adversos como alterações nas funções reprodutivas de ambos, maior incidência de câncer de mama em humanos, crescimento anormal e retardo no desenvolvimento neurológico de crianças, além de mudanças no sistema imunológico, conforme informa o site da OMS. Há alguma evidência que humanos são vulneráveis aos DE quando há alta e frequente exposição a eles, mas o estudo da baixa exposição por longos períodos ainda não trouxe resultados conclusivos.

Os DE são encontrados: no BPA – bisfenol A ou BPS – bisfenol S (em plásticos), nas dioxinas (resultam de processos industriais), na atrazina (herbicida), nos ftalatos (em plásticos), no perclorato (em explosivos, airbags, fertilizantes e herbicidas), nos metais pesados como chumbo (em tintas) e mercúrio (em peixes e no ar, onde chega pela queima de carvão mineral), nos  compostos perfluorados (em panelas antiaderentes e repelentes de água usados para impermeabilizar tapetes e tecidos), nos organofosfatos (em pesticidas) e nos éteres de glicol (em solventes de tintas, produtos de limpeza e cosméticos), triclosan (em creme dental, desodorantes e sabonetes antibactericidas).

b) Corantes artificiais com metais pesados

Corantes artificiais podem ser obtidos a partir do alcatrão de carvão, derivado da queima do carvão betuminoso, ou da destilação do petróleo, através da combinação de diversos hidrocarbonetos aromáticos, como tolueno, xileno, naftalina ou benzeno, todos considerados potenciais cancerígenos. Estes corantes e pigmentos são usados em alimentos, medicamentos, produtos têxteis, cosméticos, tinturas para cabelo, xampus, desodorantes, etc. Além de reações alérgicas na pele, suspeita-se que possam causar TDAH nas crianças e alguns estudos demonstram uma relação com casos de câncer de pele e de pulmão. O alcatrão é considerado carcinogênico pelo IARC (Agência Internacional para Pesquisas do Câncer).

Por intensificarem a cor dos produtos, metais pesados como arsênico (em bases cosméticas), mercúrio (conservante timerosal usado em medicamentos e vacinas), alumínio, cádmio (em delineadores) ou chumbo (em batons) são frequentemente adicionados a produtos, como batons, creme dental branqueador, delineadores e esmaltes de unhas, embora na maioria dos casos sejam contaminantes, ou seja, ficam nos pigmentos já que não foram deles extraídos.  Os fabricantes se defendem apontando para os baixíssimos níveis dos metais pesados em seus produtos, que estariam dentro da zona de segurança. Mas como podem existir limites seguros para toxinas, visto que estas podem se acumular no organismo, impactando negativamente as funções reprodutivas, imunológicas e do sistema nervoso?

c) Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs)

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, os POPs são produtos químicos orgânicos (compostos de carbono) sintéticos, dos quais alguns são produzidos intencionalmente, e outros são subprodutos inevitáveis de processos industriais ou da combustão de carvão mineral, madeira, lixo hospitalar e lixo comum, etc. Eles podem levar séculos para se degradar e assim acabam sendo espalhados pela água, solo ou ar, contribuindo para a poluição global e da cadeia alimentar. Eles são lipofílicos, ou seja, tendem a se acumular e concentrar em tecidos adiposos (inclusive os humanos), podendo atingir concentrações tóxicas, embora a exposição a eles pareça baixa.

Entram no organismo pela pele, inalação ou ingestão de alimentos contaminados e os efeitos sobre a saúde humana ainda não são totalmente conhecidos conforme a OMS. A maior contaminação ocorre através dos alimentos – como peixes, carnes, leite e seus derivados, legumes, frutas, cereais – por 3 vias: a absorção pela cadeia alimentar (solo contaminado gera plantas contaminadas, que são o alimento dos animais); migração de embalagens para o conteúdo; e contaminação direta em consequência de acidentes ou falhas nos processos industriais.  Após uma exposição elevada os efeitos são: erupções cutâneas, inchaço dos olhos, dores de cabeça, vômitos.

Alguns exemplos de POPs: pesticidas e insumos usados para fins industriais, como os PCBs, que foram amplamente utilizados devido a características como a não inflamabilidade, a  estabilidade química, o isolamento elétrico e alta temperatura de ebulição. Sua produção foi proibida nos EUA em 1979, mas o tratado firmado na  Convenção de Estocolmo sobre POPs de 2001 para eliminar ou restringir a produção e o uso deles entrou em vigor somente em 2004.

Leia mais na parte II AQUI.

Fontes:

http://www.who.int/ceh/capacity/v1_POPs_poluentes_organicos_persistentes.pdf?ua=1

http://www.funverde.org.br/blog/dez-toxicos-domesticos-mais-comuns

http://www.noticiasnaturais.com/2015/01/5-produtos-quimicos-domesticos-comuns-a-serem-evitados

http://www.greenpeace.org/brasil/pt/Noticias/greenpeace-denuncia-presen-a-d

http://www.shareguide.com/toxichome.html

http://www.livestrong.com/slideshow/1009222-worst-chemicals-food/#slide=1

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