Home / Blog / Seus genes não são seu destino

Corpo, mente e espírito

Seus genes não são seu destino

03/07/17 - Escrito por: ines

Costumamos achar que somos pré-destinados a herdar uma ou mais das doenças que nossos pais ou avós têm ou tiveram. Esta ideia é falsa, pelo menos em boa parte, uma vez que nossos genes sofrem forte influência do ambiente em que vivemos e do estilo de vida que escolhemos levar. Gêmeos univitelinos, que vem ao mundo com exatamente o mesmo genoma (conjunto de todos os genes), não costumam desenvolver sempre as mesmas doenças no decorrer da vida, especialmente se vivem em circunstâncias e ambientes bastante diversos. Ainda há controvérsias sobre a proporção de doenças devidas aos genes (10 a 30%), e a Organização Mundial da Saúde fala em 40%, portanto uma parte bastante baixa. Há um ditado da medicina funcional que diz: Os genes carregam a arma, mas é o meio-ambiente que aperta o gatilho – ou seja, sem gatilho a arma não dispara (a doença não se desenvolve), por mais carregada que esteja.

Os genes são compostos de DNA – dados químicos, ou modelos moleculares, que cada organismo herda e que carrega as instruções para o funcionamento de cada uma de suas células através da combinação, em sequências, de 4 bases: adenina (A), citosina (C), guanina (G) e timina (T). Embora o DNA e os genes de cada organismo sejam definitivos, eles podem mudar por 2 mecanismos: a) quando houver uma mutação genética (herdada ou adquirida), que é sempre permanente, na sequência do DNA, por exemplo através da exposição aos raios ultravioleta do sol ou à radiação ionizante (raios X), e que pode ser benéfica, prejudicial ou inofensiva; b) quando a sequência do DNA, ou sua estrutura, não se altera, mas a expressão do gene é alterada por fatores ambientais, tais como traumas, estresse ou a dieta. Resume Craig Venter,  um dos primeiros a sequenciar o genoma  humano: “Nosso genoma  está mudando e evoluindo a cada dia.”

Este artigo tratará do segundo mecanismo, ou seja, o que faz um gene se manifestar de diferentes formas, e é aí que entra o conceito de epigenética.

Epigenética e exposoma

A epigenética é o estudo de como os genes se expressam, de como fatores externos influenciam se um determinado gene sequer vai se manifestar ou não, e se o fizer, em que grau o fará. Os genes em si não fazem nada sem o comando do epigenoma  – o prefixo epi significa acima em grego, ou seja, é algo que está acima do genoma. O genoma é o hardware, é quem faz o trabalho; o epigenoma é o software que diz ao genoma o que fazer – funciona como um interruptor (de energia elétrica) com dimmer que é acionado pelo ambiente que o cerca, “ligando” ou “desligando” os genes. Diz Dr. Bruce Lipton: “Quando determinada característica de um gene se faz necessária, o ambiente gera um sinal que o ativa.” A Wikipedia nos ensina que o epigenoma liga ou desliga os genes através de sinais bioquímicos e em resposta a sinais ambientais. Então, é conhecendo o epigenoma que se sabe como os genes agem – não basta conhecer o genoma.

O conjunto de fatores externos e internos que determinam nossa saúde é chamado de exposoma, e engloba elementos como:

  • Ambiente externo geral, como o clima, se moramos em ambiente urbano ou rural, nível social, educacional e financeiro, nível de estresse;
  • Ambiente externo específico, como a dieta, exercícios, a exposição a toxinas (em produtos de higiene pessoal, nos alimentos, no ar, na água), vícios (fumo, álcool); inclui o ambiente desde a nossa concepção (estado de saúde dos pais), passando pela gestação (saúde e hábitos da mãe), parto (cesárea x normal) e se fomos amamentados ou não, até a qualidade do vínculo criado com a mãe, o pai ou outros cuidadores;
  • Ambiente interno, como o metabolismo ou o microbioma individuais

Como se mede as mudanças provocadas pelo epigenoma? Costuma-se estudar gêmeos univitelinos, que nascem com o mesmo material genético, e as causas que levam seus genes a se manifestar desigualmente com o passar do tempo.

E assim como genes são passados para as próximas gerações, da mesma forma os componentes epigenéticos o são – é a herança epigenética – fazendo com que um determinado estilo de vida impacte também os descendentes. Em estudo feito com pessoas expostas ao holocausto e seus descendentes ( publicado no Journal of Biological Psychiatry em 2016) constatou-se que havia uma alteração na metilação do gene FKBBP5 em ambos os grupos, demonstrando que traumas psíquicos podem impactar mais de uma geração.

História da epigenética

O termo epigenética foi cunhado por Conrad H. Waddington em 1942, porém ela começou a ser mais intensivamente pesquisada somente nos últimos 40 anos. Sendo considerada uma das maiores revoluções na moderna biologia ao ampliar o conceito de hereditariedade, atualmente desperta um interesse imenso na comunidade científica: basta verificar a grande quantidade de palestras a respeito nos TED talks, que traduzem assuntos complexos para leigos. Assim, o assunto promete grandes novidades para os próximos anos.

Um dos pioneiros no estudo da epigenética é o biólogo celular Dr. Bruce Lipton, que em seu livro “Biologia da Crença” descreve como as células agem. Ao contrário do que se pensava até recentemente, o núcleo da célula, onde se encontram os genes, não é o “cérebro” da célula, uma vez que células enucleadas (das quais se retirou o núcleo) continuam exercendo todas as suas funções biológicas, menos a reprodução, respondendo, inclusive, aos estímulos do ambiente. Quem realmente “manda” no funcionamento das células são as membranas que as envolvem e que tem receptores em sua superfície, que agem como órgãos sensoriais, equivalendo a olhos, nariz ou orelhas das células. Como os receptores são capazes de captar campos de energia (impulsos nervosos são de origem elétrica), e não só moléculas físicas, “o comportamento biológico (das células) pode ser controlado por forças invisíveis, incluindo o pensamento…”  (veja mais AQUI).

Assim, então, ele prova que os genes não controlam sua própria atividade, mas reagem a estímulos externos. Conforme Lipton, como estratégia de sobrevivência e evolução não faria sentido algum que os genes pré-programassem a atividade de uma célula ou a vida inteira dos organismos, uma vez que estes ficariam privados de um importante mecanismo de adaptação, que é a adequação constante às mudanças que acontecem o tempo todo à nossa volta.

Epigenética, alimentação e exercícios

Os processos epigenéticos se dão majoritariamente através da metilação do DNA, que ocorre quando grupos de átomos, chamados de grupos metila, se acoplam às moléculas do DNA fazendo com que o gene seja ligado ou desligado, recebendo e respondendo assim aos sinais bioquímicos do organismo. Esta metilação é afetada pela dieta, exercícios ou exposição a toxinas, como mostram alguns exemplos a seguir.

Na alimentação: a família das crucíferas (brócolis, couve, etc.) contém isotiocianatos, que aumentam a acetilação e deacetilação de histona (um processo de regulação genética); o galato de epigalocatequina, encontrada no chá verde, influencia a metilação do DNA (processo usado para controlar a expressão genética).

Nos exercícios: sabemos que o nosso fenótipo (características físicas observáveis) difere bastante do de nossos ancestrais caçadores e coletores, que se movimentavam muito mais e executavam inúmeras tarefas pesadas, fazendo com que tivessem uma massa muscular bem mais desenvolvida do que a maioria das pessoas tem hoje, moldando assim a nossa aparência pela redução drástica da atividade física. Ou seja, nosso mundo atual cheio de máquinas nos fez ficar menos musculosos, apesar da base genética ter ficado a mesma. Outro exemplo: exercícios anaeróbios levam à fosforilação da proteína P70-S6 quinase 1, envolvida na formação de músculos (veja mais sobre exercícios AQUI). As miocinas, produzidas pelas células musculares (miócitos), quando em uso, especialmente com exercícios de resistência e peso, tem diversos impactos positivos sobre a saúde, visto que tem propriedades anti-inflamatórias, melhoram a sensibilidade à insulina, reduzem a aterosclerose, aumentam a produção de neurotransmissores, etc., mesmo sem alterar os genes em si.

Epigenética e câncer

O câncer vem acometendo cada vez mais gente, inclusive jovens (e animais domésticos igualmente) e hoje é uma das principais causas de morte. A medicina convencional o atribui em grande parte ao envelhecimento (embora ele seja mais comum do que gostaríamos também entre jovens) e à herança genética, mas as medicinas funcional e do estilo de vida dizem que só uma pequena parcela é atribuível aos genes (que não precisam obrigatoriamente se manifestar), enquanto a maior parcela se deve a fatores ambientais e de estilo de vida. Poluição ambiental e toxinas nos alimentos e em plásticos, produtos de higiene pessoal e de limpeza contribuem para inflamar e oxidar nosso organismo; maus hábitos como fumar e consumir álcool em excesso danificam órgãos e tecidos; e a obesidade e outros fatores de risco (sedentarismo, dieta ruim, idade avançada) estão associados a diversos tipos de câncer.

A pesquisadora Minna Bissel fala num TED Talk sobre suas pesquisas com células malignas retiradas de pacientes cancerosos que se tornam células normais quando expostas a um ambiente também normal (fora do organismo), ou seja, é o contexto que importa para uma célula maligna se desenvolver e multiplicar, ou não; portanto, células malignas só se multiplicariam em organismos não saudáveis (inflamados, oxidados, intoxicados), e seriam um sintoma de que o organismo não está bem.

Epigenética e autismo

Mesmo o autismo, tido como de origem predominantemente genética na medicina convencional,  tem só aproximadamente 40% de origem genética, sendo os restantes 60% resultantes de fatores ambientais, conforme pesquisas recentes feitas com pares de gêmeos univitelinos. Contatou-se que nem sempre ambos os gêmeos desenvolvem a doença, ou mesmo quando o fazem, o grau e os desvios comportamentais podem ser bastante distintos entre eles. Suspeita-se que estas diferenças sejam devidas, em boa parte, aos estressores a que os fetos são expostos ainda antes de nascer (que podem ser diferentes entre ambos) ou depois do nascimento, como a exposição a toxinas, deficiências nutricionais, sensibilidades alimentares, estresse emocional da mãe, etc.

Nós controlamos nossa saúde

Se nos comunicamos com nossos genes através da dieta, de nosso estilo de vida e do meio ambiente em que vivemos, então temos mais controle sobre a nossa saúde do que imaginávamos – e com isto também a nossa responsabilidade por mantê-la aumenta. Na medicina convencional nosso comprometimento com a própria saúde não é estimulado, pois o paciente é tratado como vítima: não raro ouvimos os médicos dizerem que nossa doença é hereditária (se parentes próximos a tem/tinham) e que por isto teremos que tomar determinado medicamento o resto da vida. Isto gera um conformismo que acaba beneficiando, acima de tudo, a indústria farmacêutica, cujo sonho de consumo é ter clientes cativos.

Porém, sabemos que diversas doenças crônicas param de evoluir, melhoram ou até se revertem totalmente (a medicina convencional prefere dizer que estão controladas, mas jamais curadas) – o caso mais conhecido é o do diabetes tipo 2 – quando o paciente opta por um estilo de vida saudável. Então, afinal, não somos tão vítima assim.

Adotar um estilo de vida saudável traz resultados tanto na esfera terapêutica, como também na preventiva. Diz Dr. Mark Hyman, um dos expoentes da medicina funcional no EUA, que as pesquisas demonstram que mudar seu estilo de vida pode ser uma intervenção mais poderosa para prevenir doenças do coração do que qualquer medicação. Também o pesquisador Dr. Steven Schroeder concluiu que a maior influência sobre o risco de morte nos EUA é atribuído ao comportamento individual nocivo, como fumar, ter excesso de peso ou estresse.

Mesmo que toda a população tivesse acesso a uma medicina de ponta, somente uma pequena fração das vidas – uns 10% – poderia ser salva com intervenções de alta tecnologia. A maior redução de mortes – 40% – resultaria da adoção de hábitos mais saudáveis. Estes não só reduziriam muito os custos do sistema de saúde, mas também diminuiriam o sofrimento dos doentes. Então, culpe menos os seus genes e veja o que bons hábitos podem fazer por você AQUI

Caso tenha dúvidas ou queira comentar este artigo, por favor use o espaço abaixo.

Fontes:

https://www.theguardian.com/science/2001/feb/11/genetics.humanbehaviour

https://chriskresser.com/why-your-genes-arent-your-destiny

https://www.livescience.com/37135-dna-epigenetics-disease-research.html

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2290514

http://fitness.mercola.com/sites/fitness/archive/2015/02/13/exercise-affects-genes.aspx

“A Biologia da Crença”, de Bruce Lipton, 2007

http://www.biologicalpsychiatryjournal.com/article/S0006-3223(15)00652-6/abstract

www.ted.com/talks/mina_bissell_experiments_that_point_to_a_new_understanding_of_cancer

http://www.nature.com/tp/journal/v2/n8/full/tp201277a.html

Compartilhe:

Deixe seu comentário: